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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Concepções de linguagem alteram o que e como ensinar

Entenda por que a prática diária da leitura e a escrita, em atividades mediadas pelo professor, são fundamentais quando se considera a linguagem como forma de interação social

PAPEL DE ESCRIBA Eleger um jovem para escrever as produções orais incentiva a construção coletiva. Foto: Drawlio Joca
PAPEL DE ESCRIBA Eleger um jovem para escrever as produções orais incentiva a construção coletiva
Na década de 1970, uma transformação conceitual mudou as práticas escolares. A linguagem deixou de ser entendida apenas como a expressão do pensamento para ser vista também como um instrumento de comunicação, envolvendo um interlocutor e uma mensagem que precisa ser compreendida. Todos os gêneros passaram a ser vistos como importantes instrumentos de transmissão de mensagens: o aluno precisaria aprender as características de cada um deles para reproduzi-los na escrita e também para identificá-los nos textos lidos.
Ainda era essencial seguir um padrão preestabelecido, e qualquer anormalidade seria um ruído. Para contemplar a perspectiva, o acervo de obras estudadas acabou ampliado, já que o formato dos textos clássicos não servia de subsídio para a escrita de cartas, por exemplo.
Segundo a pedagoga especializada em linguística, Kátia Lomba Bräkling, nessa concepção, a língua é um código e escrever seria o exercício de combinar palavras e frases para formar um texto. Assim, o ensino precisava focar prioritariamente as estruturas – os substantivos, os verbos, os pronomes, etc. – que compõem a língua e seus usos corretos.
Em pouco tempo, no entanto, as correntes acadêmicas avançaram mais. Mikhail Bakhtin (1895-1975) apresentou uma nova concepção de linguagem, a enunciativo-discursiva, que considera o discurso uma prática social e uma forma de interação - tese que vigora até hoje. A relação interpessoal, o contexto de produção dos textos, as diferentes situações de comunicação, os gêneros, a interpretação e a intenção de quem o produz passaram a ser peças-chave.
A expressão não era mais vista como uma representação da realidade, mas o resultado das intenções de quem a produziu e o impacto que terá no receptor. O aluno passou a ser visto como sujeito ativo, e não um reprodutor de modelos, e atuante - em vez de ser passivo no momento de ler e escutar.
Essas ideias ganharam suporte das pesquisas que têm em comum as concepções de aprendizagem socioconstrutivistas, que consideram o conhecimento como sendo elaborado pelo sujeito, e não só transmitido pelo mestre. Entre os principais pensadores estão Lev Vygostsky (1896-1934) - que mostrou a importância da interação social e das trocas de saberes entre as crianças - e Jean Piaget (1896-1980) - pai da teoria construtivista.
Nos anos 1980, Emilia Ferreiro e Ana Teberosky, autoras do livro Psicogênese da Língua Escrita, apresentaram resultados de suas pesquisas sobre a alfabetização, mostrando que o aluno constrói hipóteses sobre a escrita e também aprende ao reorganizar os dados que têm em sua mente. Em seguida, as pesquisas de didática da leitura e escrita produziram conhecimentos sobre o ensino e a aprendizagem desses conteúdos.
Hoje, a tendência propõe que certas atividades sejam feitas diariamente com os alunos de todos os anos para desenvolver habilidades leitoras e escritoras. Entre elas, estão a leitura e escrita feita pelos próprios estudantes e pelo professor para a turma (enquanto eles não compreendem o sistema de escrita), as práticas de comunicação oral para aprender os gêneros do discurso e as atividades de análise e reflexão sobre a língua.
A leitura, coletiva e individualmente, em voz alta ou baixa, precisa fazer parte do cotidiano na sala. "O mesmo acontece com a escrita, no convívio com diferentes gêneros e propostas diretivas do professor. O propósito maior deve ser ver a linguagem como uma interação", explica Francisca Maciel, diretora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale), em Belo Horizonte.
O desenvolvimento da linguagem oral, por sua vez, apesar de ainda pouco priorizado na escola, precisa ser trabalhado com exposições sobre um conteúdo, debates e argumentações, explanação sobre um tema lido ou leituras de poesias. "O importante é oferecer oportunidades de fala, mostrando a adequação da língua a cada situação social de comunicação oral".
Trecho adaptado da reportagem O papel das letras na interação social.

Revista Nova Escola

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Um dó ou uma dó


A palavra dó é um substantivo masculino. Assim, dizer um dó está correto e dizer uma dó está errado. Devemos utilizar o substantivo masculino dó sempre que quisermos referir um sentimento de pena e compaixão que se sente por alguém, por alguma coisa ou por si mesmo, bem como um sentimento de grande tristeza, pesar e luto. Dó significa também a primeira nota musical da escala natural em modo maior.

A palavra dó, quando se referindo ao sentimento, tem sua origem na palavra em latim dolus. É sinônima de compaixão, compadecimento, comiseração, condoimento, consternação, piedade, entre outros.

Exemplos:

Tenho um grande dó das pessoas que passam fome.
Sinto um dó enorme quando ela está chorando.
Não tenho nenhum dó de você.
Uma dó é um erro que ocorre porque se associa, erradamente, a palavra dó às palavras pena, piedade, compaixão, lástima. Contudo, embora sejam palavras sinônimas, dó é um substantivo masculino e as restantes palavras são substantivos femininos.

Exemplos:

Sinto um grande dó.
Sinto uma grande compaixão.
Sinto uma grande piedade.
Fique sabendo mais!
Dó, se referindo a uma nota musical, também é um substantivo masculino. As notas musicais são dó, ré, mi, fá, sol, lá e si.

Exemplo:

O pianista tocou um dó sustenido.

duvidas.dicio.com.br

domingo, 25 de janeiro de 2015

Nova Ortografia - Acento do ditongo aberto é eliminado somente nas paroxítonas

Por Thaís Nicoleti

Usando uma expressão empregada pelo gramático Evanildo Bechara, a língua portuguesa acaba de receber uma nova "vestimenta gráfica", uniformizando-se em todos os países em que é o idioma oficial.

Uma das alterações que nós, brasileiros, vamos sentir bastante é a supressão do acento agudo nos ditongos abertos em sílaba tônica. Em nosso país, a pronúncia de termos como "heróico", "paranóico", "idéia" ou "assembléia" é marcadamente aberta, diferente, portanto, da pronúncia de termos como "arroio", "joio", "aldeia" ou "sereia".

De acordo com o novo sistema ortográfico, são eliminados os acentos dos ditongos abertos tônicos que se encontram na penúltima sílaba das palavras, ou seja, o acento desaparece apenas nas paroxítonas. Passamos, portanto, a escrever "heroico", "paranoico", "ideia" e "assembleia", todas sem acento.

Palavras oxítonas ("chapéu", "solidéu", "herói", "caubói", "corrói" etc.), bem como os monossílabos tônicos ("céu", "réu", "rói", "mói", "dói" etc.), terão os acentos preservados. É importante observar essa circunstância e ficar atento a seus desdobramentos: por exemplo, não há mais distinção gráfica entre o substantivo "apoio" (pronúncia fechada) e a forma verbal "apoio" ("eu apoio"), de pronúncia aberta no Brasil.

Os topônimos (nomes de lugares) também sofrem alteração. Escreveremos, portanto, Coreia, Jureia, Boraceia, Cananeia, Pompeia etc. "Ilhéus", entretanto, mantém o acento por ser oxítona. Com o tempo, virá o hábito.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Imoral e amoral

Ultimamente, “imoral” e “amoral” têm sido aplicados para designar um mesmo significado: aquele que não tem moral, ética.

É verdade, os dois termos referem-se à questão moral, no entanto, têm relações diferentes com ela.

Certa vez, Oscar Wilde disse “a arte não é moral nem imoral, mas amoral”! O que isso quer dizer? Vejamos por etapas e tendo por base o dicionário enciclopédico ilustrado Veja Larousse:

Primeiramente, o que é moral? É o que está “de acordo com os bons costumes e regras de conduta; conjunto de regras de conduta proposto por uma determinada doutrina ou inerente a uma determinada condição.”

No mesmo dicionário, moral também é classificada como o “conjunto dos princípios da honestidade e do pudor”. Daí este termo ser tão utilizado em âmbito social, principalmente no político!

Imoral é tudo aquilo que contraria o que foi exposto acima a respeito da moral. Quando há falta de pudor, quando algo induz ao pecado, à indecência, há falta de moral, ou seja, há imoralidade.

Amoral é a pessoa que não tem senso do que seja moral, ética. A questão moral para este indivíduo é desconhecida, estranha e, portanto, “não leva em consideração preceitos morais”. É o caso, por exemplo, dos índios no tempo do descobrimento ou de uma sociedade, como a chinesa, que não vê o fato de matar meninas, a fim de controlar a natalidade, como algo mórbido e triste.

Assim, o que Oscar Wilde quis dizer é que a arte não tem senso do que seja moral, por isso, para alguns, tudo o que é visto não causa assombro, está dentro dos costumes. Já para outros, dependendo do que se vê, é ultrajante, indecente!



Publicado por: Sabrina Vilarinho em Dúvidas de vocabulário

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Saber não ocupa lugar




19/02/2009 “Façam aquilo que lhes convém”

E o bendito “Acordo” continua produzindo inquietações. A bola da vez é a conjugação dos verbos “ter”, “vir” e derivados. Houve mudanças na acentuação e na grafia das flexões desses verbos? E qual será o motivo dessa inquietação? Nas primeiras semanas do ano, foram muitas as mensagens de leitores a respeito disso.
Bem, de início é bom ser taxativo: não aconteceu nada de nada com esses verbos. O “Acordo” alterou a acentuação de algumas formas dos verbos “crer”, “dar”, “ler”, “ver” e derivados (“descrer”, “reler”, “prever”, “rever” etc.). Foi eliminado o circunflexo que se colocava no primeiro “e” do grupo “ee” das formas “creem”, “deem”, “leem”, veem”, “descreem”, “releem”, “preveem”, “reveem” etc.
Em suas mensagens, os leitores perguntam se houve alteração em formas como “convém” e “convêm”, “mantém” e “mantêm” etc. Já afirmei (e repito) que não aconteceu nada. Fica tudo como antes no famoso quartel. Bem, já que falamos desses verbos, não custa nada lembrar como se acentuam os pares mencionados e que diferença há entre os integrantes desses pares.
Estamos prontos? Então vamos lá. Quando conjugados na terceira pessoa do singular e na terceira do plural do presente do indicativo, os verbos derivados de “ter” (“deter”, “reter”, “conter”, “obter”, “manter”, “abster”, “entreter”, entre outros) e os derivados de “vir” (“convir”, “provir”, “intervir”, “advir”, entre outros) apresentam formas que são diferenciadas por um acento gráfico. Na terceira do singular, emprega-se o acento agudo: ele detém, retém, contém, obtém, mantém, abstém, entretém, convém, provém, intervém, advém. Na terceira do plural, emprega-se o acento circunflexo: eles detêm, retêm, contêm, obtêm, mantêm, abstêm, entretêm, convêm, provêm, intervêm, advêm.
Vejamos alguns exemplos: “Lula não intervém no BC”; “Os americanos sempre intervêm nas questões internas da América Latina”; “Este balde contém cinco litros de água”; “Estes frascos contêm soro”.
Está tudo claro? Vamos conferir. Por que no último exemplo temos “contêm” e no penúltimo, “contém”? No último exemplo, o verbo (“contêm”) está no plural porque seu sujeito (“estes frascos”) está no plural. No penúltimo, o verbo (“contém”) está no singular porque seu sujeito (“este balde”) está no singular.
E como fica a frase que está no título deste texto? Para entender por que é “convém” (e não “convêm”) a forma adequada, é preciso ler com atenção a frase. Vamos repetir: “Façam aquilo que lhes convém”. Não se deixe levar pelo plural da forma verbal “façam” (que deixa subentendido o pronome “vocês”) ou pelo plural do pronome “lhes” (que está em sintonia com o pronome subentendido, “vocês”). Repito: não se deixe levar por esses plurais. A forma verbal “convém” não se refere a nenhum desses elementos. A forma “convém” se ao pronome “aquilo”, por isso foi flexionada no singular.
Muitas vezes, o uso inadequado do verbo no plural se dá por influência dos termos próximos, flexionados no plural. Tradução: na frase em questão, quem opta por “convêm” erra porque se deixa levar por “façam” e “lhes”, que estão no plural.
Vamos tentar entender a questão por outro ângulo. Que tal trocar “convir” por “agradar”? Como ficaria a frase em questão: “Façam aquilo que lhes agradam” ou “Façam aquilo que lhes agrada”? Já sabe, não? A forma cabível é “agrada”: “Façam aquilo que lhes agrada”; “Façam aquilo que agrada a vocês”. Está definitivamente claro, não?
Para encerrar, quero fazer uma velha pergunta, que já fiz mais de uma vez neste espaço. Diga qual destas duas frases é a correta: a) “Que força detém esses corruptos?”; b) “Que força detêm esses corruptos?”. Já pensou? Em qual você votou? Quem votou na “a” acertou. Quem votou na “b” também acertou. Na verdade, só errou quem votou em apenas uma das duas. Só acertou quem disse que as duas são possíveis. A primeira é correta porque o sujeito de “detém” é “força”. Pergunta-se que força é capaz de deter esses corruptos. A segunda é correta porque o sujeito de “detêm” é “esses corruptos”. Pergunta-se que força esses corruptos detêm, possuem.
Pasquale Cipro Neto

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Despedida do TREMA


Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüentas anos. 
Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!... 
O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio... A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. Os dois pontos disseram que eu sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé. 
Até o cedilha foi a favor da minha expulsão e o obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?... A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, "Kkk" pra cá, "www" pra lá. 
Até o jogo da velha que ninguém nunca ligou virou celebridade nesse tal de Twitter que, aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos:  haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou "tremendo" de medo. Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!... 
Nós nos veremos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história. 

Adeus, 
Trema.


Recebi por email

sábado, 4 de dezembro de 2010

"As escorregada "


Ao ver alguma figura importante falando na TV como, por exemplo, o presidente Lula, esperamos que ele fale o português mais correto possível, o que chamamos de norma culta, afinal ele está representando o país e não pode passar (ou nos deixar passar) vergonha.
Nesse vídeo do www.youtube.com, Lula é estigmatizado por todos por não falar o plural da forma correta (entre outros “erros”), e as pessoas se deliciam ao ver uma personalidade importante cometendo erros tidos como absurdos. Lula sofre preconceitos de todos os tipos, desde o social, pois vem de uma classe social baixa, até o preconceito linguístico, que advém do próprio preconceito social.
O que muitas pessoas não sabem é que o português falado é diferente do português escrito.
Quando corrigimos alguém que fala “os livro tão caro”, ao invés de “os livros estão caros”, estamos, em primeiro lugar, nos baseando somente no que diz a gramática. Gramática que serve apenas para nos auxiliar na escrita do português, e não na fala dele! E em segundo lugar, estamos sendo hipócritas, pois por mais que a gente pense que fale “os livros estão caros”, estamos enganados; faça o teste, preste atenção na maneira como você fala e verá o que acontece realmente. Há essa supressão porque a língua não sente a necessidade de marcar o plural em todos os elementos da frase. A presença do “s” no artigo é suficiente para marcar o plural, não causando nenhuma confusão: todos sabem que quando alguém diz “os livro tão caro”, quer dizer que mais de um livro está caro.
No inglês, por exemplo, para indicar o plural, basta que uma palavra esteja marcada, como na frase: The books are expensive (os livros estão caros), em que somente “book” está sinalizando que a frase está no plural. Há essa diferença por convenção. Foi convencionado que na Língua Portuguesa (escrita) é preciso ser feita a marcação de plural em todas as palavras da frase, enquanto que, na Língua Inglesa, foi convencionado o contrário. Não querendo dizer, entretanto, que tenhamos que falar da mesma maneira, já que na fala não sentimos a mesma necessidade que na escrita.
Portanto, não existe o “falar corretamente”. Todos que falam português, falam da maneira certa, pois se não fosse assim, as pessoas não se entenderiam entre elas, o que não acontece. Por mais que a pessoa diga “os livro tão caro” ou “pobrema” ela vai ser entendida pelos outros, com os quais está se comunicando, sem nenhum tipo de confusão ou estranhamento.

Publicado no blog de  Leandro Rodrigues  em 28/11/2007

Quem fala errado é burro?

Sob a ótica do preconceito linguístico, qualquer manifestação linguística que escape do triângulo escola-gramática-dicionário é considerada "errada", e não é raro a gente ouvir que "isso não é português".
Um exemplo, na visão preconceituosa da língua, é a transformação de "L" em "R" nos encontros consonantais como em Creusa, chicrete, praca e pranta onde a pessoa que assim fala é extremamente estigmatizada, sendo considerada, às vezes, como "atrasada mental".
Estudando cientificamente a questão, é fácil descobrir que não estamos diante de um traço de "atraso mental" dos falantes "ignorantes", mas simplesmente diante de um fenômeno fonético que contribuiu para a formação da própria língua portuguesa padrão.
Observem o quadro:
Português Padrão
Etimologia
Origem
Branco
Blank
Germânico
Escravo
Sclavo
Latim
Praga
Plaga
Latim
Prata
Plata
Provençal

Como podemos notar, todas as palavras do português-padrão listadas acima tinham, na sua origem, um "L" bem nítido que se transformou em "R". E agora? Se acreditássemos que as pessoas que dizem Creusa, chicrete e pranta têm algum "defeito" ou "atraso mental", seríamos forçados a admitir que toda a população da província romana da Lusitânia também tinha esse mesmo problema na época em que a língua portuguesa estava se formando. E que Luiz de Camões também sofria desse mesmo mal, já que ele escreveu ingrês, pubricar, frauta, frecha, na sua obra que é considerada até hoje o maior monumento literário do português clássico: Os Lusíadas.
Este fenômeno que participou, inclusive, da formação da língua portuguesa padrão, chama-se rotacismo, e ele continua vivo e atuante no português não-padrão, porque essa variante deixa que as tendências normais e inerentes à língua se manifestem livremente.
Burrice, isso sim, é julgar sem ter conhecimento prévio, sem base cientifica, sem argumentos plausíveis. Falar "errado" não é sinal de burrice, como muitos acreditam, aliás, o que é falar errado? Falar diferente não pode ser considerado errado. É aí que está o preconceito. 

Publicado no blog de Leandro Rodrigues em 28/11/2007 

A Mídia e a Difusão do Preconceito

A cada dia que passa, nos encontramos na situação de testemunhas do preconceito linguístico. Isso, claro, se não somos nós mesmos alvos desse preconceito ou até mesmo responsáveis por ele. Mas não há novidade nisso. O preconceito linguístico é um problema da sociedade, enraizado no sistema de educação atual e na formação de nossos professores, isto já nos é sabido. Mas será que é só isso?
Esse trabalho para a cadeira de linguística possibilitou uma reflexão mais aprofundada a respeito do Preconceito Linguístico. Infelizmente foi muito fácil acharmos exemplos para postarmos no blog. Isso mostra como a ideia de que existe uma língua única e correta está enraizada em nossa sociedade. Podemos ver também que a mídia não ajuda. Pode-se ligar a televisão a qualquer hora do dia, e teremos um sem número de exemplos de estigmas sociais difundidos pelos programas, novelas e filmes exibidos naquele momento. Esse meio que poderia ser tão importante para amenizar o problema, acaba por reafirmar que existem "pessoas ignorantes" que "falam errado". O processo de conscientização sobre o problema que é o preconceito linguístico é lento, infelizmente. Mas em contraparte, bastam alguns minutos em frente à TV, por exemplo, para que o preconceito atinja centenas de pessoas. A mídia atualmente promove o preconceito, e o faz de forma desenfreada e inconsciente (esperemos). Essa difusão é tão grave quanto o preconceito em si, pois diminui as possibilidades da população adquirir consciência sobre o erro que comete.

Em seu programa de talk-show, Jô Soares, antes de entrevistar seus convidados, faz uma série de comentários e piadas sobre os considerados “erros de português” e ortografia, arrancando risadas do auditório. Em um longa-metragem americano, as personagens não nascidas nos EUA que falam inglês são, por seu sotaque, estigmatizados como não sendo capazes de falar uma língua que não a sua. Em um programa de rádio, o grupo de locutores do Pânico caçoa de ouvintes por possíveis erros do bom português, quando não criticam uns aos outros, tendo mesmo entre eles uma pessoa marcada pela ideia de falta de inteligência, Sabrina Sato.

O Preconceito Social e Linguístico só pode acabar quando todos percebermos a responsabilidade que temos para com ele. E essa responsabilidade somente chegará às pessoas através dos meios de comunicação, da mídia. É o papel de facilitar mudanças sociais que compõe a ideia da Comunicação Social, é esta a ferramenta. O problema não está no Jô Soares, no diretor de filme americano ou nos garotos do Pânico, e sim na forma como nós vemos uns aos outros e lidamos com as diferenças. Na minha opinião (que talvez expresse a opinião do blog) são os profissionais da educação e da comunicação de hoje que poderão colaborar para com o fim do preconceito amanhã.

Publicado no blog de Leandro Rodrigues em 29/11/2007

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Bagno: "Precisamos letrar os professores"

Entrevista concedida por  Marcos Bagno  ao Jornal do Commercio de Recife, em 25/4/10

JORNAL DO COMMERCIO – O que mais contribuiu para disseminar o preconceito linguístico no Brasil? A escola ou a mídia?
MARCOS BAGNO – Sem dúvida nenhuma, os principais veículos de difusão e perpetuação do preconceito linguístico são os meios de comunicação. Enquanto as diretrizes oficiais de ensino, em consonância com as pesquisas mais avançadas da linguística e da pedagogia, preconizam uma abordagem da língua mais democrática, mais respeitosa da diversidade linguística e social, os meios de comunicação, sempre muito vinculados às classes dominantes e a seus valores e ideologias, continuam apregoando um modelo de “correção” linguística que não corresponde sequer à prática dos nossos melhores escritores nos últimos cem anos, nem tampouco ao que é registrado nas boas gramáticas normativas e nos dicionários bem conceituados. Esses “comandos paragramaticais”, como eu os chamo, tentam impor um modelo de língua “certa” que é extremamente anacrônico, pré-modernista quase. Há portanto um divórcio entre o que se produz nas universidades, o que se propõe oficialmente como ensino de língua para as escolas e o que se estampa nos jornais, nas revistas, o que aparece na televisão, no rádio, na internet. Embora alguns meios de comunicação deem espaço a um discurso mais avançado sobre língua e linguagem, isso representa uma gota d’água num oceano de manifestações da mídia profundamente retrógradas no que diz respeito à língua e a seu ensino.
JC – No seu livro A norma oculta você afirma que não existe preconceito linguístico, na verdade o preconceito é social. Em que se baseia essa afirmação?
BAGNO – O preconceito linguístico é um disfarce amplamente aceito para que uma pessoa seja discriminada e excluída dos bens sociais aos quais teria direito pelo simples fato de ser um cidadão. Como existe uma crença generalizada de que existe uma única maneira “certa” de falar, de que as pessoas não escolarizadas falam “tudo errado”, essas alegações de base linguística servem como desculpa para que a pessoa seja discriminada, quando na verdade ela é discriminada porque é pobre, porque é negra, porque é mulher, porque vem de uma região geográfica desprestigiada, porque exerce uma profissão pouco valorizada. Muitas vezes um mesmo suposto “erro” é condenado quando é produzido por uma pessoa sem prestígio social e perdoado como “licença poética” por uma pessoa provinda das classes privilegiadas. As pesquisas mostram que as diferenças entre a fala de uma pessoa altamente letrada e a fala de uma pessoa analfabeta são mínimas, mas essas mínimas diferenças servem como razão suficiente para que a pessoa que já desprestigiada sofra ainda mais discriminação.
JC – Você enfrenta preconceitos por defender as variedades linguísticas? De onde vêm as críticas mais aguçadas?
BAGNO – Como a defesa da variação linguística é, antes de tudo, uma tomada de posição política, as principais críticas provêm dos setores mais reacionários, da direita brasileira, que hoje tem notórios representantes nos meios de comunicação. No entanto, recebo incomparavelmente mais apoio dos milhões de pessoas que em sua experiência de vida sofreram ou sofrem com o preconceito linguístico e encontram no que eu escrevo uma base teórica para defender seus direitos.
JC – O ensino de língua portuguesa na educação básica tem se adequado para ensinar o aluno a lidar com as diferenças linguísticas ou a gramática ainda é o centro das atenções nas escolas?
BAGNO – Apesar de todos os avanços das ciências da linguagem e da educação e da incorporação das propostas de ensino mais progressistas nas diretrizes oficiais, a prática de sala de aula ainda é muito conservadora, inspirada na crença falaciosa de que é preciso transmitir na íntegra toda a nomenclatura gramatical tradicional para ser decorada como um fim em si mesma, sem nenhuma demonstração da relevância desse aprendizado para a formação cultural do aprendiz. O grande problema está nos cursos de formação de professores, que se mantêm apegados a uma estrutura acadêmica rançosa, criada no século XIX, que não se adequou ainda ao mundo contemporâneo. Os cursos de Letras deveriam ser implodidos para, no lugar deles, serem criados novos cursos, mais sintonizados com o que deve de fato constar na formação de professores de língua neste século XXI.
JC – Haveria um modelo ideal de ensino de Língua Portuguesa?
BAGNO – O que eu defendo é o que vem sendo proposto por centenas de pessoas, há mais de 30 anos, no Brasil e no resto do mundo: as aulas de língua materna têm que se destinar, antes de mais nada, à inserção dos aprendizes na cultura letrada, e isso se faz por meio da leitura, da escrita, da leitura, da escrita e principalmente da leitura e da escrita. Enquanto nossos professores acharem que é preciso ensinar dígrafo, oxítonas, preposições, oração subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo, epiceno e outras coisas cabalísticas desse tipo, nossa educação linguística continuará catastrófica como já está. Outro problema é que temos muitos e muitos professores incapazes de ensinar a ler e a escrever adequadamente porque eles mesmos não têm domínio suficiente da cultura letrada na qual deveriam inserir seus alunos. Temos, antes de tudo, que letrar os nossos professores.
JC – Essa história de que linguista defende que não há “certo” e “errado” em português é correta? Vale tudo no uso da língua?
BAGNO – Dizer que os linguistas são os apóstolos do “vale-tudo” é fruto ou da ignorância ou da má-fé. Nenhum linguista sensato jamais disse que não é preciso ensinar aos alunos as formas privilegiadas, normatizadas de uso da língua. O que dizemos é que essas não são as únicas formas válidas de uso da língua e que é preciso abordar em sala de aula a multiplicidade de usos idiomáticos que existe na sociedade. No entanto, como nossa sociedade só consegue pensar em termos de sim/não, preto/branco, certo/errado, um discurso que contemple a variação, a noção de pluralidade de falas, não consegue penetrar no senso comum.
JC – A discussão sobre variação linguística e preconceito linguístico está difundida na sociedade?
BAGNO – Bem menos do que seria desejável, bem menos do que a noção antiga e estúpida de que existe um modo “certo” de falar e que tudo o que difere dele é necessariamente errado. No entanto, como na formação dos professores nas boas universidades (apesar de nem sempre de modo adequado) a discussão sobre a variação linguística já se faz de maneira permanente, creio que em breve teremos algum reflexo desse debate também na sociedade. (A.T.)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

domingo, 24 de agosto de 2008

A LINGUAGEM NOSSA DE CADA DIA

Por: Ed Cavalcante

Cada um fala do seu jeito, isso nós aprendemos ainda em casa. Esse “jeito” de falar está diretamente relacionado ao lugar e ao grupo social em que o indivíduo vive. O mais interessante, nessa diversificação da forma de se expressar ,é que mesmo em espaços urbanos pequenos como um bairro, por exemplo, encontramos a pluralidade lingüística. Veja o exemplo a seguir: Na esquina de um bairro da periferia do Recife, aconteceu um assalto. Três pessoas observaram a cena de longe e depois narraram o fato:

Versão de um policial: “o meliante subtraiu o pertence da vítima, adentrou no auto-passeio e evadiu-se”

Versão de um malandro: “então, o comédia botou pra cima da “mulé”, entrou no carro e pinotou”

Versão de um senhor: “o ladrão roubou a bolsa da mulher, entrou no carro e fugiu!

Note que todos retrataram a mesma cena, mas cada um usou a sua linguagem cotidiana. O discurso do policial está carregado de jargões do meio militar. Já o discurso do malandro tem a presença forte da gíria. Por fim, o senhor retratou a cena com uma linguagem formal. A linguagem coloquial é plenamente aceitável no dia-a-dia. Entretanto, ao redigir um texto você deve observar as normas da escrita formal. Quem transita bem por esses dois mundos acaba se sobressaindo.