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domingo, 25 de janeiro de 2015

'O valioso tempo dos maduros’, Mário de Andrade

“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo
que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis,
para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturas.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos?
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa.
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, quero caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!"
Mário de Andrade

sábado, 4 de dezembro de 2010

Não há silêncio que não termine-Ingrid Betancourt


Memórias de uma descida ao inferno
Andreia Santana
Não há silêncio que não termine é um livro de cunho político, mas é também a catarse da dor de dezenas de seres humanos rebaixados a condição de pária. A obra de Ingrid Betancourt, ex-candidata à presidência colombiana sequestrada pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em 2002 e mantida em cativeiro até 2008, mescla narrativa em primeira e terceira pessoa com um ritmo ágil, como um thriller, a ponto do leitor (o menos preguiçoso) não sentir o peso das mais de 500 páginas. Traz ainda a angústia de uma mulher e de uma mãe privada da companhia dos filhos por longos anos. E a tristeza de uma filha que perdeu o pai, maior referência de sua vida.
Um mês depois do rapto, Ingrid ficou sabendo da morte de seu pai, o ex-embaixador da Unesco Gabriel Betancourt, porque ao receber comida de um guerrilheiro, ela estava embrulhada em um pedaço de jornal que narrava o cortejo fúnebre. Em 23 de fevereiro de 2002, em uma viagem durante a campanha presidencial, a então candidata foi raptada pelas Farc – um dos grupos mais famosos da guerrilha no país -, na estrada que conduzia até a cidade de San Vicente de Caguan. Estava sem escolta, porque no último minuto, ordens do governo colombiano confiscaram os soldados que iriam proteger a comitiva da candidata, sob alegação de que a área estava desmilitarizada e era segura.
Durante quase sete anos, até ser libertada em 2 de julho de 2008, Ingrid viveu prisioneira em um paraíso verde que ganhou contornos de uma das estações do inferno de Dante Alighieri (italiano renascentista, autor da Divina Comédia). Escondida em sucessivos acampamentos na selva amazônica, passou fome e frio; além de sofrer violência moral e física. Sua história é mais que conhecida, ela virou mito ainda em cativeiro. A foto que a mostrava debilitada e presa em um dos acampamentos, correu o globo e chamou a atenção da opinião pública mundial. Então, o livro não traz novidades quanto aos fatos, mas traz o testemunho de quem viveu o inferno na pele e a análise dos acontecimentos, sob a perspectiva da vítima.
Desabafo – Ingrid Betancourt precisa romper o silêncio, como o título da obra sugere, e expurgar toda a miséria que presenciou. Por ser uma pessoa de cultura refinada e com traquejo com as palavras, além de sólida formação filosófica e humanista, essa catarse é conduzida em uma narrativa magistral, que introduz o leitor na mata cerrada, entre os igarapés e os grandes rios da Amazônia colombiana. A selva de Ingrid dá medo na mesma proporção em que suas angústias comovem e revoltam.
Com grande lucidez, a autora elabora um dossiê com olhar crítico e humanístico sobre o fracasso do ideal revolucionário diante do jogo do poder. Revela ainda sua decepção com a condução do caso pelo governo de seu país, ressentindo-se do “abandono” legado aos reféns da guerrilha pelo presidente Uribe. Lembra porém, os presidentes franceses Chirac e Sarkozy; além do venezuelano Hugo Chávez, que tentou suscessivas negociações para a libertação dos reféns e conseguiu a soltura de Clara Rojas.
Quem espera uma descrição romântica da luta armada, pensando na figura de Che Guevara, por exemplo, se choca com a crueza com que a narradora disseca as Farc, uma associação descrita por ela como corrupta (associada e financiada pelo narcotráfico) e cruel. Mas, o livro passa muito longe de ser apenas o espelho de revolta de uma ex-prisioneira. Embora condene os atos de brutalidade praticados por muitos dos guerrilheiros que lhe serviram de carcereiros e mostre que o ideal socialista da revolução cedeu lugar a interesses bem capitalistas como roupas boas e aparelhos eletrônicos, a autora não deixa de se questionar sobre o que faria se fosse ela do lado oposto à mira do fuzil.
Também não nega que em meio ao contingente recrutado pelas Farc entre camponeses e miseráveis num país de grande injustiça social e corrupção do governo (com as oligarquias que se sucedem no poder), existam de fato aqueles que acreditam no poder da revolução. O problema é que a ideologia dos mais ingênuos (ou humanos) é manipulada habilmente por aqueles que cobiçam o poder pelo poder e não porque desejam repartí-lo com os mais pobres. Em nome de manter para si um padrão social semelhante ao da burguesia que diz combater, o alto comando da guerrilha afunda as bases do socialismo em um mar de sangue e relações excusas com o crime organizado, denuncia a autora.
Fé e filosofia - Reflexivo, o livro serve de autoanálise para uma mulher que encontrou na natureza selvagem da Amazônia uma prisão, mas também um santuário – tão assustador, silencioso e isolado quanto uma catedral – para se reconectar com Deus. Em alguns trechos, o misticismo da autora parece exagerado e exasperante (principalmente aos leitores mais pragmáticos). Mas quem pode saber como reagiria ao sofrimento enfrentado por ela? Na fé e nas longas reflexões filosóficas, Betancourt encontrou a serenidade necessária para não enlouquecer, mas sobretudo para não perder-se no labirinto criado pela guerrilha com o objetivo de quebrar a resistência moral dos prisioneiros.
Durante 2.323 dias, Ingrid Betancourt foi amarrada em troncos de árvores por correntes presas ao pescoço; se viu forçada a marchar debaixo de tempestades tropicais até os pés esfolarem; foi obrigada a fazer suas necessidades fisiológicas diante de homens que zombavam dela e não a chamavam pelo nome, mas apenas de cucha (velha) e que se referiam aos prisioneiros como pacote, encomenda ou a carga. “É um mecanismo de autodefesa dos guerrilheiros. Eles precisam nos destituir de humanidade, porque é mais fácil atirar numa carga do que em um ser humano. Matar um ser humano a sangue frio traz culpa”, escreve.
Em meio aos seus relatos, é impossível não sentir na carne, sobretudo se o leitor for mulher, quando ela nos descreve o constrangimento de tomar banho menstruada junto com os demais prisioneiros (homens e mulheres) e sempre sob a mira de uma arma.
A mesquinhez que a alma humana revela quando posta a prova e quando destituída dos seus confortos básicos (casa arrumada, roupas limpas, comida boa), também é tema recorrente ao longo do livro. Com lucidez, Ingrid expõe as próprias feridas e fraquezas e as dos companheiros de cativeiro, revelando as brigas infantis e desesperadas por comida ou por pedaços de plástico que serviriam de abrigo contra a chuva.
Mostra ainda as intrigas típicas do ambiente penitenciário, com as divisões entre preferidos e desafetos dos carcereiros e a arrogância despótica daqueles que caem nas graças dos comandantes. Por nunca ter abaixado a cabeça para a guerrilha, foi duramente criticada pelos companheiros de cárcere e chamada pedante. No entanto, pagou na carne, sofrendo torturas dignas da Inquisição, por cada ato de rebeldia que tinha o objetivo de manter sua integridade. Se recusava a virar “a carga” ou “o pacote”, embora tenha se sentido exatamente um nada, nas crises de depressão.
Julgamento moral - A autora julga a todos ao seu redor, sem pudores, mas principalmente, julga a si mesma num exercício de humildade quase inaciano. Ao longo das páginas do seu diário (versão moderna das Memórias do Cárcere de Graciliano Ramos ou da Memória da Casa dos Mortos, de Dostoiévski) é perceptível que ela carrega um forte sentimento de culpa, provavelmente fruto da formação cristã que recebeu e das diferenças de classe tão demarcadas pelas condições extremas de vida no seio da guerrilha. Mas também, fruto do choque em descobrir-se capaz de, nessas mesmas condições extremas, cometer os atos de barbárie que condena nos guerrilheiros.
E ainda, porque ao perder tudo e ser reduzida ao estado bruto e primitivo do ser humano, só via dois caminhos: o embrutecimento ou a redenção pela solidariedade. Ingrid Betancourt, ao que parece, escolheu o segundo caminho.
Em tempo: Uma produtora de cinema, a The Kennedy/Marshall, comprou os direitos autorais de Não há silêncio que não termine, cujo título foi retirado de um verso de Pablo Neruda (o poeta frequentava a casa de Gabriel Betancourt) e o roteiro do filme baseado nos relatos de Ingrid está sendo adaptado.

Publicado em  por Andreia Santana

sábado, 13 de novembro de 2010

FLIPORTO


Em seis anos dedicados ao debate da literatura, a Fliporto se consolida  como lugar da mediação e da convergência de discussões em torno de nossa construção cultural. É o espaço ideal para debater as novas configurações identitárias, a própria conformação do povo brasileiro e os grandes dilemas e conflitos contemporâneos.

O encontro - que esse ano deixa o balneário Porto de Galinhas para se intitular Festa Literária Internacional de Pernambuco – presta ainda uma justa homenagem à escritora Clarice Lispector. Além da mudança de nome, a Fliporto 2010 muda de residência coerentemente migrando para Olinda, emblemática como patrimônio histórico e cultural da humanidade. Sua marca se transfigura preservando a essência do ‘porto’, o espaço em que viajantes e nativos se misturam, trocando suas riquezas e misturando artefatos. É o maior porto literário do nosso vasto mar cultural que é o Nordeste.

Sob o tema Literatura e Presença Judaica no Mundo Ibero-americano, a sexta edição recebe entre os nobres ‘marinheiros’ os autores brasileiros Arnaldo Niskier e Moacyr Scliar. Entre os especialistas em Clarice Lispector estão os biógrafos Nádia Gotlib e o americano Benjamin Moser, esse último responsável por “Clarice,”, lançado em 2009. Além deles há os nomes de François Jullien, Marck Dery, Camille Paglia, Ricardo Piglia, Alberto Manguel, Richard Zimler, Ronaldo Vainfas, Contardo Calligaris, Ronaldo Wrobel, Adriana Armony e Guilherme Fiúza. Os pernambucanos José Luiz Mota Menezes e Luzilá Gonçalves também participam da festa.

Cinema, artes plásticas, música e tecnologia também encontram amplo debate na Fliporto 2010. Hoje, a Fliporto se impõe enquanto um evento dinâmico, que envolve toda a comunidade literária de Pernambuco e dos estados vizinhos, oferecendo uma intensa programação alinhada ao melhor de nossas letras.

Fonte: http://feiradolivrope.blogspot.com/p/fliporto.html

Pena que não estarei lá, em virtude de estar descansando em Maragogi, um paraíso de sol e mar. Gostaria imensamente de participar de tudo e de rever dois queridos professores com quem tive a honra de estudar na UFPE: Luzilá Gonçalves e Marcus Accioly, além de 'limpar a vista' com o lindo Evaristo Filho, que conheci criança, kkkkk! Aproveitem! "Saber não ocupa lugar"! Vamos ler, pessoal! Quem lê muito, não assassina nosso idioma, a 'língua de Camões', a 'última flor do Lácio', inculta e bela!!!


Bete Cavalcanti

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Tirei meu coração das suas mãos


Hoje decidi... não mais viver em vão,
Não quero mais meus olhos molhados,
Tantos sorrisos mentirosos, fingidos...
Revoltas e gritos de dor acorrentados.

Meu coração não mais estará em
Suas mãos... ferido... maltratado...
Perdido em sonhos e quimeras...
Por dúvidas e incertezas abrasado.

Decidi deixá-lo livre, caminhar...
Percorrer as esquinas da vida...
Voar pelo céu, quebrar o cadeado,
Abandonar de vez a sobrevida...


Tirei meu coração das suas mãos,
Ele está enfermo é bem verdade...
Mas ficará curado dessa doença,
Terrivelmente desumana e grave...

Meu coração já não é seu, não lhe
Pertence, não tem mais dono...
Não mais viverá descompassado,
Agitado, nem me fará perder o sono...

Tirei meu coração das suas mãos,
Não aceito mais nenhum ladrão!

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Silêncio

Il s'en plaignit, il en parla:
J'en connais de plus misérables!
JOB, Benserade.

Cala. Qualquer que seja esse tormento
que te lacera o coração transido,
guarda-o dentro de ti, sem um gemido,
sem um gemido, sem um só lamento!

Por mais que doa e sangre o ferimento,
não mostres a ninguém, compadecido,

a tua dor, o teu amor traído:
não prostituas o teu sofrimento!

Pranto ou Palavra - em nada disso cabe
todo o amargor de um coração enfermo
profundamente vilipendiado.

Nada é tão nobre como ver quem sabe,
trancado dentro de uma dor sem termo,
mágoas terríveis suportar calado!

(Últimos versos, in Poesias, 1904.)

(Poesias, 1962.)

Medeiros e Albuquerque

O Tempo...

Adormecida em seu féretro lúgubre
Ela não padece porque seu sono
É velado pela noite obscura.
Seu tempo sob o mundo está se esvaindo como o pulsar de um coração enfermo!
O desalento tomou conta de sua alma
Porque encontra-se perdida e sem rumo
Através dos séculos e séculos...
Seu tempo sob o mundo está se esvaindo como o pulsar de um coração enfermo!
Seus olhos estão cristalizados
Pelas lágrimas de sangue que vertem
Quando o sol aparece no horizonte.
Seu tempo sob o mundo está se esvaindo como o pulsar de um coração enfermo!
Seu coração permanece dilacerado
Pelos punhais vis que o machucam
Tornando-o clausurado e indecifrável.
Seu tempo sob o mundo está se esvaindo como o pulsar de um coração enfermo!
Seu corpo está frio e pálido
Pelos ventos que sopram fortemente
Fazendo-o desfalecer lentamente.
Seu tempo sob o mundo está se esvaindo como o pulsar de um coração enfermo!
Sua alma negra clama por compaixão
Para que ela obtenha o acalento
Mesmo que momentâneo...
Seu tempo sob o mundo está se esvaindo como o pulsar de um coração enfermo!
No entanto, as rosas brancas exalam seu perfume
Que podem ser sentidos por toda a necrópole
Sussurrando que ela adormece sozinha em seu mausoléu.
Seu tempo sob o mundo está se esvaindo como o pulsar de um coração enfermo!

Morticia da noite

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Biblioteca de Bete III


Muito pequena (muito nova,antes que alguém me corrija,porque pequena ainda sou,kkkkk)li esse livro e nunca mais esqueci. Não me lembrava da história,só sabia que que tudo florescia onde o garoto tocava, mas ficou uma memória afetiva,sempre falava dele com as pessoas e sentia muita vontade de relê-lo. Há uns 2 ou 3 anos uma colega mo emprestou. Confesso que não foi a mesma coisa,dessa vez o li com olhos e contexto de adulta,a magia da infância não estava mais presente! Mesmo assim recomendo essa leitura. Presenteiem as crianças com essa bela história e compartilhem dela também!

Tistu é um menino muito sortudo. Vive na cidade chamada Mirapólvora numa grande casa, a Casa-que-Brilha, com o Sr. Papai, Dona Mamãe e o seu querido pônei Ginástico. Eles são ricos pois o Sr Papai tem uma fábrica de canhões. Para grande decepção de todos, Tistu dorme nas aulas. Sr Papai resolve fazer com que Tistu aprenda as coisas vendo-as e vivenciando-as. As aulas serão com o jardineiro Bigode e com o gerente da fábrica de canhões, o Sr Trovões.
Na primeira aula, o jardineiro bigode descobre um dom fantástico em Tistu: o menino tem o dedo verde! Isto significa que, onde ele colocar o dedo, nascerão flores! Porém as pessoas grandes não iriam entender este dom. Seria melhor mantê-lo em segredo. Bigode se transforma no conselheiro de Tistu
Com o Sr Trovões Tistu conhece um pouco do lado triste do mundo: a miséria, a prisão, o hospital. Ele resolve alegrar estes ambientes colocando seu dedo lá, mas no anonimato. Para o espanto da população, o presídio ficou com tantas flores que as portas não conseguiam mais fechar. Mas os presos não queriam fugir, pois estavam maravilhados! As flores da favela absorveram o lamaçal e enfeitaram as casas, transformando a favela em atração turística. A menina do hospital, que antes contava os buraquinhos do teto para passar o tempo agora conta botões de rosas, que nascem em volta do seu leito. A cidade, e a vida das pessoas da cidade, mudaram completamente.
Tistu então conhece a fábrica do Sr Papai. Ele fica inconformado com o mal que os canhões e as guerras trazem. Secretamente, coloca o dedo nos canhões que estavam sendo enviados para uma guerra. Resultado: a guerra fracassa, pois ao invés de bombas, os canhões lançaram flores. A fábrica é arruinada. Vendo o desespero do sr Papai, Tistu resolve revelar que foi ele quem colocou as flores nos canhões e prova isso fazendo nascer uma flor no quadro de seu avô, na parede. Sr Papai resolve então transformar a fábrica de canhões em fábrica de flores. A cidade passa a se chamar Miraflores.

Para saber mais,só lendo o livro!!!